Toda vez que ouço “CPTM”, imagino a voz metálica completando a frase com o significado da sigla “Céu Para Todos os Merdas“. E logo me vem à memória de que a estação Luz está bem distante da Paraíso. Penso nessa brincadeira de nomes de estaçãoes desde que comecei a usar metrô de fato.
Isso foi lá pros meus 14, 15 anos. Parece tarde, eu sei, mas no geral, eu só usava metrô ao lado da minha mãe quando era realmente necessário. Quando cheguei a esta idade, comecei a sair e reparar no transporte público de São Paulo. Em ônibus eu já reparei mais. Já senti frio na barriga ao torcer para que o motorista visse meu sinal. Agora encaro isso como rotina.
Mas o metrô não. Metrô é diferente. Eu gosto sempre de estar com os cabelos soltos e sem fone de ouvido quando o metrô pára na estação, assim posso ouvir o grito ensurdecedor que ele dá quando freia. Uma vez, fui até o Jabaquara e, a partir da Saúde mais ou menos, o grito agudo era constante e não se ouvia nada dentro do próprio transporte. Foi um dos momentos em que mais estremeci e mais me deleitei por dentro.
Além de que, fico me encarando enquanto ele ainda está em alta velocidade e consigo ver meu reflexo nas janelas. Parece que meu próprio demônio está ali, de pé, me olhando e apenas esperando o momento certo para pular no meu pescoço e me enforcar.
Já nas estações, é claro, todas as pessoas com tendência à depressão (como eu) gostam de observar os passantes de catracas e se atentar às seus incríveis detalhes. Já pensei em andar com um caderninho e uma caneta e anotar idéias que surgem nesses tempos em que olho as pessoas andando por aí, mas me veio à cabeça de que, infelizmente, seriam idéias iguais umas às outras.
Me lembro de alguns detalhes ao andar de metrô. Minha época do Abraços Grátis, quando andava com o Cauê e o Rafael, quando andava com o Leonardo, quando era de manhã e eu estava voltando dos rolês da Mônica, ou quando eu fiz minha única viagem para o Tatuapé. Memórias que eu guardo com carinho porque cada uma delas me lembra meu estado de espírito mais comum diante do minhocão e do espelho:
Eu tinha certeza de que isso ia acontecer. Me vejo fadada ao decair dos olhos a toda vez que alguém os levanta.
Fica frio de novo.
| “Night after night she lay alone in bed | |
| Her eyes so open to the dark” – Charlotte Sometimes – The Cure. Boa Noite! |

